REVENDO


Relendo o memorial que encaminhei à XXI Bienal de São Paulo sobre a obra de Décio Soncini, voltou-me uma resposta do artista naquela ocasião: “Desde o início estou contando a mesma história, podem mudar os personagens, os assuntos, mas a história é a mesma.” Qual a razão então de minha estranheza, e daqueles que  viram suas últimas obras? Aquelas superfícies desgastadas, erodidas pelo tempo, recobertas de sujidades, apontando acusadoramente uma decadência e um desleixo das coisas do passado, muros e casas oníricas como refúgios de um mundo em desagregação desapareceram. Depois a cor, embora fiel ainda a sua paleta, mas matizada nas tonalidades claras afasta-se do tom soturno e da atmosfera depressiva que a caracterizava. Predominam agora as formas vegetais, existe uma busca pela natureza em sua forma mais essencial, um mundo de vida vegetal com a tranqüilidade e o apelo de imagens primárias, fontes inesgotáveis de uma busca existencial no sentido de viver.

Lembramos que, a escolha no inconsciente de um símbolo, sempre ultrapassa aquele que o emprega, e faz dizer na realidade mais do que a consciência deseja explicar. A experiência pictural vai além do decalque de uma experiência de visão, é a abertura corpórea primordial do ser ao mundo. Por isso, as florestas como no caso dos “guardiães”, constituem-se em símbolo claro transposto já nas palavras do título, em nítida sinalização de uma equivalência mitológica (e psicológica) de fronteiras da consciência. Apresentando-se como obstáculos à visibilidade, os troncos impedem a passagem do olhar, que perscruta o desconhecido através das frestas, tenta alcançar a iluminação exígua que se filtra, como lampejos de um conhecimento interior.Floresta domesticada ou bosque, vasos e folhagens, a vida vegetal aparece como símbolo de transformação, de uma possibilidade de vir a ser, ainda impedida pelas revelações do inconsciente. Em suas múltiplas imagens existe o ritmo das forças elementares naturais, emanações de um sonho inteiramente imerso numa contemplação inconsciente, que é a de si próprio.

Recordo assim as palavras de Albert Camus, sobre o lugar da arte no mundo, que se aplicam aqui e a todos os artistas que realmente vivenciam esse processo: “A Arte é uma experiência repetida, monótona e apaixonada, dos temas orquestrados pelo mundo – o corpo imagem inesgotável.”

 

Walter de Queiroz Guerreiro

Crítico de Arte (ABCA/AICA)

         

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Décio Soncini



Currículo artístico



Antonio Zago - Revista "Isto É" - abr./1982 



Alberto Beutemüller - Revista Visão/abr. de 1982 



Enock Sacramento - Exposição - 1985 / Apresentação



Olívio Tavares de Araújo - Exposição - 1988 / apresentação



Radah Abramo - Revista "Isto É" - março/1989 



Walter de Queiroz Guerreiro - Exposição - 1993 / Apresentação



Artigo publicado no jornal "A Noticia" em outubro de 2003



Raul Forbes - Apresentação da exposição "Paisagens" - setembro/2011 



Lúcia Chaves - "Os infinitos cantos do ateliê" - maio/2014 



Walter de Queiroz Guerreiro - "Passagens" - agosto/2014 



Enock Sacramento- "4.2: Gonzalez e Soncini" - Março/Junho/2019


 
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